Blog

Evoluir espiritualmente

Posted by:

Evoluir espiritualmente

Diz um velho koan zen:

Um estudante foi ao seu professor e disse fervorosamente: “Eu estou ansioso para entender seus ensinamentos e atingir a Iluminação! Quanto tempo vai demorar para eu obter este prémio e dominar este conhecimento?”

A resposta do professor foi casual: “Uns dez anos…”

Impacientemente, o estudante completou: “Mas eu quero entender todos os segredos mais rápido que isto! Vou trabalhar duro! Vou praticar todo o dia, estudar e decorar todos os sutras, farei isso dez ou mais horas por dia!! Neste caso, em quanto tempo chegarei ao objectivo?”

O professor pensou um pouco e disse suavemente: “Vinte anos.”

Não se pode apressar o caminho espiritual de alguém. Como se costuma dizer: “A pressa é inimiga da perfeição”. Antes de iniciarem a prática da Meditação, alguns alunos revelam essa ansiedade, essa pressa de chegar a um lugar e, de entre esses, outros ainda mais racionalistas, tendem quase a querer negociar um prazo com a sua Alma para a evolução. Não funciona nem nunca funcionará dessa forma.

A evolução espiritual exige tempo, dedicação mas acima de tudo, constância e perseverança. É a perseverança que vai fazer com que a tartaruga supere a lebre no caminho espiritual. A entrada no caminho não poderá ser por impulso mas por insight. Imensas pessoas confundem impulso com insight. O insight é uma intuição e a intuição é uma comunicação do nosso espírito para o nosso ego, a nossa personalidade. Quando recebemos algum insight durante uma meditação ou um simples período de silêncio ou de contemplação, a fonte é o nosso Eu Superior, o nosso guia, o Anjo da Guarda, um Ser de Luz ou, noutros casos, até mesmo um vulgar espírito desencarnado que se encostou temporariamente à pessoa naquele momento para lhe transmitir a mensagem.

Já o impulso tem como fonte o ego. Tem a culpa de não ter feito rigorosamente nada pela sua própria evolução espiritual excepto preocupar-se, exclusivamente, com os seus afazeres mundanos do momento nos últimos 15 ou 20 anos, e nunca ter dedicado a viver a vida de forma consciente. Nada contra viver. Pelo contrário. Se a nossa Alma se propôs a mais uma encarnação, foi no sentido de maior progresso espiritual e aprendizagem e isso só conseguirá mais rapidamente estando encarnada do que estando desencarnada. Um espírito encarnado pode evoluir em 10 anos aquilo que um desencarnado necessitaria de 100 anos.

Assim, na Espiritualidade, tomar decisões por mero impulso emocional de culpa ou outra emoção é bastante diferente de tomar uma decisão por insight. Jamais deveremos olvidar a estrutura tripartida de um ser humano no que se concerne à fonte da tomada de decisões:

Parte animal – instinto
Parte humana – intelecto/raciocínio
Parte divina – intuição

Todas estas fontes de informação são necessárias na nossa vida mas é importante dispôrmos de sabedoria para sabermos quando devemos usar cada uma delas.

O instinto é excelente para nos assegurar da nossa sobrevivência ao nível físico no que diz respeito à satisfação das necessidades biológicas.
O intelecto é necessário ao engenheiro civil que está a realizar cálculos de Física e Matemática para construir uma ponte.
A intuição é necessária para sabermos o sentido da vida e para nos relacionarmos com o plano Espiritual.

O instinto é a mais imediatista das fontes de informação. Diz-nos o que necessitamos de fazer a muito curto prazo. No entanto, a fonte mais adequada para a Espiritualidade é a intuição. Assim, a decisão de evoluir espiritualmente deve partir da intuição, de uma parte de nós que sente a necessidade de encontrar um sentido naquilo que faz, nas situações de vida que está a atravessar no momento. Não pode ser apressada.

Imensas vezes, tenho alunos de meditação que têm vontade de evoluir espiritualmente com grande rapidez. Esse desejo é de grande mérito. No entanto, não é suportado pela perseverança e uma grande parte acabará por sucumbir ao facilitismo e à preguiça. O facto de se terem de levantar 20 minutos mais cedo para praticar meditação com um mantra de manhã e o facto de terem que praticar mais 20 minutos à noite é para alguns, em si mesmo, um factor de dissuasão. No entanto, buscam Sabedoria, Paz Interior, Equanimidade e Equilíbrio que só a Meditação lhes poderia outorgar. Recomendo a Meditação Transcendental dado ser uma das mais estudadas cientificamente desde que foi revelada por S.S. Maharishi Mahesh Yogi.

Uma boa parte dos iniciantes estão presos a diversos mecanismos de auto-sabotagem do ego e a única forma de derrotar esses mesmos mecanismos é através da Sabedoria, da observação interior que se faz durante o próprio processo da Meditação. Por vezes, argumentam: “Não tenho tempo para praticar a Meditação. Tenho uma vida muito agitada” ao que lhes respondo: “Por isso mesmo, necessita de Meditação. Se tivesse uma vida repleta de Paz, não necessitaria da Meditação. Por acaso, nega-se a procurar um médico argumentando que não poderá tomar a medicação porque está doente?”.

Ora é precisamente quando alguém está doente que deverá procurar o médico. Da mesma forma, é precisamente quando alguém tem falta de paz interior, de sentido de vida, que deverá praticar a Meditação. Se a pessoa estiver em Paz não sentirá tanta motivação em curar o seu espírito. Curar o seu espírito significa amar-se mais a si mesmo, procurar a Fonte e sentir-se amada por ela, observar-se a si mesmo e repousar finalmente num estado de consciência que transcende as limitações da mente a qual cria o espaço, o tempo e a matéria. A mente cria a nossa realidade a todo o instante. Quem nós realmente somos, permanece imutável no centro do tempo e do espaço sendo que o espaço e o tempo se movem através de nós como experiências criadas pela mente. Para ilustrar melhor a ideia, irei mostrar ao caro leitor mais um koan zen:

Dois monges discutiam a respeito da bandeira do templo, que tremulava ao vento. Um deles disse:
– É a bandeira que se move.
O outro disse:
– É o vento que se move.
Trocaram ideias e não conseguiam chegar a um acordo. Então Hui-neng, o sexto patriarca, disse:
– Não é a bandeira que se move. É a mente dos senhores que se move.
Os dois monges ficaram perplexos.

A evolução espiritual não depende tanto da técnica que usa para chegar à Iluminação mas sim da determinação que tem em atingir a maestria de si mesmo. Não adiantará tentar praticar 6 a 7 horas seguidas de Meditação Transcendental para corresponder a 20 a 30 mins de manhã e à tarde durante uma semana uma vez que a criação do hábito é extremamente importante em qualquer prática espiritual. A evolução espiritual não é algo que a pessoa possa comprimir temporalmente.

Da mesma forma que o caro leitor, todos os dias, toma o seu pequeno-almoço, o seu almoço, o seu lanche e o seu jantar e, ainda, eventualmente, a sua ceia, para alimentar o seu corpo, também deverá todos os dias ter um determinado tempo para a prática espiritual para alimentar o seu espírito. Nesse sentido, não adiantaria muito jejuar durante 6 dias seguidos e comer um lauto almoço ao sétimo dia para corresponder a todas as refeições que deveria ter consumido e que não consumíu. O leitor argumentará, com razão, que isso não seria benéfico para a sua saúde e que tomar uma grande refeição de uma só vez não equivale a consumir pequenas refeições várias vezes ao dia, consoante a necessidade do corpo.

Por essa mesma razão, o mestre Zen, no primeiro koan, denuncia estar plenamente consciente de que aqueles discípulos que são mais fervorosos no início da caminhada, tendem a ser os que primeiro desistem. De pouco serve aprender uma técnica de Meditação, Yoga ou Reiki e depois não a aplicar por preguiça, comodismo ou falta de fé. No entanto, dado que tudo na vida são lições de auto-aprendizado, pelo menos, dessa forma o iniciante toma consciência da sua dificuldade em seguir algo que de início tanto o seduzíu pela promessa de alcançar aquilo que os mais perseverantes na prática conquistam. O discípulo deve, humildemente, reconhecer as suas próprias fraquezas interiores e jamais projectar em alguém as suas próprias falhas. Estará simplesmente a retardar a sua evolução. O verdadeiro mestre é o mestre interior. O mestre exterior é apenas um espelho do mestre interior. Todos as pessoas têm um guru interior, um guia que o orienta ao longo da caminhada. No entanto, poucas se dispõem a recolher-se ao silêncio para o poderem ouvir, em meio aos apelos incessantes da voz do ego que o tenta distrair através da corrente de desejos que o aprisiona.

O caminho espiritual exige paciência, humildade, auto-exigência, fé, devoção, perseverança, disciplina e não apego aos resultados. Esses são os valores que se devem fazer acompanhar daquele que se auto-intitula discípulo de qualquer prática espiritual para evolução, seja o Reiki, a Meditação Transcendental, o Yoga ou o Chi Kung.

A Espiritualidade serve para trazer sentido à vida do ser humano. Nem sempre é possível erradicar todas as doenças e sofrimentos através da Espiritualidade. No entanto, com o sentido que a Espiritualidade dá à vida do ser humano, os efeitos desses problemas são grandemente amenizados.

0

About the Author:

  Artigos relacionados
  • No related posts found.